Roundtable

Lisboa: uma cidade musical?

2020. Portugués

Summary
As cidades sempre foram locais centrais para a produção, circulação e consumo de música popular. Como catalisadores de criatividade musical, as cidades contribuíram para o surgimento de formas comerciais de música popular, do rock ao hip-hop, à música eletrónica de dança ou o trap. As áreas urbanas são também sítios onde comunidades musicais nas margens do “mainstream” se formam e se reproduzem. Por outras palavras, música e cidade estão intimamente ligadas: não podemos imaginar uma cidade sem atividade musical, assim como é difícil dissociar certos géneros e estilos da música popular do meio urbano em que emergiram.

Nos últimos anos, o termo “music city” (cidade musical) foi adotado como uma expressão apelativa para denotar “um lugar com uma economia musical dinâmica que foi intencionalmente apoiada e promovida” através da política musical. Nessa perspectiva, a música é considerada um ativo valioso da cidade que “deve ser avaliado e gerido ” como qualquer outra infraestrutura urbana. Por outro lado, para os críticos deste paradigma, o conceito de “cidade musical” representa apenas mais uma estratégia “top-down” de marketing urbano com vista a impulsionar o turismo e aumentar a competitividade no contexto global. Além disso, a conceptualização normativa do que é ou deveria ser uma “cidade musical” oferece uma visão restrita de um ecossistema bastante complexo constituído por uma teia de alianças sociais, culturais e emocionais construídas em torno da música. Ao focar-se estritamente no valor económico, essa visão muitas vezes falha por não contemplar a experiência orgânica e vivida da sociabilidade musical no contexto urbano.

A pandemia da COVID-19 tem tido um impacto especialmente negativo no sector da música em geral, e da música ao vivo em particular, na cidade de Lisboa. As medidas adotadas para a contenção do vírus (desde o encerramento do lazer noturno até a cancelação de concertos, a limitação à mobilidade ou a imposição de medidas de distanciamento físico que tornam insustentável a sobrevivência de muitos locais de música ao vivo) repercutiram-se significativamente no ecossistema musical da cidade. E agora?

Esta mesa redonda tem como objetivo debater o(s) futuro(s) do ecossistema musical de Lisboa com alguns dos seus protagonistas. Com a crise suscitada pela COVID-19 como inevitável pano de fundo, esta conversa pretende ser um espaço de partilha e troca de experiências de resiliência, resistência e adaptação que permitam imaginar—com os pés assentes na terra—uma cidade futura, com um ecossistema musical vibrante, diverso e enraizado na comunidade.
Keywords
Ciudad musical. Lisboa. Escenas musicales.